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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A Grande Aceleração

A Grande Aceleração é um evento único na história de 4.5 biliões de anos do nosso planeta. Este período da história que começa no início da Revolução Industrial, por volta de 1750, e continua nos dias de hoje. Pela primeira vez, as actividades humanas e o sistema económico global em particular, são o principal factor de alteração do sistema Terra ou seja a soma de todos os processos físicos, químicos, biológicos e humanos que interagem entre si.

Desde então, a população mundial cresceu 7 vezes, ultrapassando os 7.6 mil milhões e a economia mundial cresceu mais de 30 vezes. Mas foi nos últimos 50 anos que o desenvolvimento económico tem provocado uma procura crescente de energia, solo e água o que altera de forma fundamental o sistema de funcionamento da Terra.

O desenvolvimento económico e o crescimento das classes médias tem trazido vários benefícios nomeamente na melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas. No entanto, as melhorias exponenciais nos campos da saúde, conhecimento e qualidade de vida vêm acompanhadas de um custo enorme para a estabilidade dos sistemas naturais que nos sustentam. O nosso impacto atingiu uma tal escala que interfere com a atmosfera, a criosfera, os oceanos, as florestas, o solo e a biodiversidade do nosso planeta.

Para ilustrar essa aceleração foram apresentados, em 2004, 24 indicadores na síntese Global Change and the Earth System pelo IGBP (International Geosphere-Biosphere Programme) e que foram em 2015 revistos e actualizados na publicação Anthropocene Review.

12 tendências sócio-económicas.

Esses indicadores foram divididos em 12 indicadores relativos a tendências sócio-económicas e 12 relativos às tendências do sistema Terra. Os primeiros 12 reflectem as tendências da população, produto interno bruto, investimento directo estrangeiro, população urbano, uso primário de energia, consumo de fertilizantes, grandes barragens, uso da água, a produção de papel, transporte, telecomunicações e turismo internacional. Os segundos 12 reflectem as tendências relativamente ao dióxido de carbono, óxido nitroso, metano, ozono estratosférico, temperatura à superfície, acidificação dos oceanos, captura de peixes marinhos, aquacultura, fluxo de azoto que chega à costa, perda de floresta tropical, transformação do solo e degradação da biosfera terrestre. 

12 tendências do Sistema Terra.

As tendências da Grande Aceleração suportam a sugestão de que a Terra entrou numa nova era geológica - o Antropoceno - cujo termo foi autoria de Paul Crutzen e Eugene Stoermer em 2000. Até agora, o termo ainda não foi formalizado e também questiona-se quanto data do seu início.

Fontes:
Living Planet Report 2018
https://www.wwf.org.uk/sites/default/files/2018-10/wwfintl_livingplanet_full.pdf
Planetary dashboard shows “Great Acceleration” in human activity since 1950
http://www.igbp.net/news/pressreleases/pressreleases/planetarydashboardshowsgreataccelerationinhumanactivitysince1950.5.950c2fa1495db7081eb42.html

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Como a estrutura etária de uma população afecta o seu crescimento ou declínio

Mesmo que por magia conseguimos atingir amanhã o nível de reposição para a taxa de fertilidade, ou seja, 2.1 filhos por mulher, o população mundial continuaria a crescer pelo menos durante os próximos 50 anos, assumido que não haverá um aumento da taxa de mortalidade. Este crescimento continuado resulta em grande parte da estrutura da população: os números ou percentagens de pessoas do sexo masculino e feminino nos três grupos etários (jovens, adultos e idosos).

Os especialistas em demografia constroem, assim, pirâmides ou diagramas da estrutura etária da população representado o número de pessoas do sexo masculino e feminino em cada uma das faixas etárias: pré-reprodutiva (0-14 anos), reprodutiva (15-44 anos) e pós-reprodutiva (acima dos 45 anos).

Podemos então encontrar basicamente quatro tipo de pirâmides que vão resultar em dinâmicas evolutivas distintas:
  1. Crescimento rápido: países onde a população cresce rapidamente, cerca de 1,5 a 3% ao ano.
  2. Crescimento lento: países onde a população cresce entre 0,3 a 1,4% ao ano.
  3. Estável: países onde a população tem um crescimento zero ou nulo, entre 0 e 0,2% ao ano.
  4. Declínio: países onde a população tem um "crescimento negativo".
4 tipos de pirâmides de estrutura etária - crescimento rápido, crescimento lento, estável e declínio
(Fonte: http://slideplayer.com/slide/6279021/21/images/48/Age+Structure+Diagrams.jpg)

Um país com um grande percentagem da sua população em idade inferior a 15 anos vai experimentar um crescimento rápido a menos que as taxas de mortalidade subam rapidamente. Em virtude deste momentum demográfico, o número de nascimentos irá aumentar nas próximas décadas mesmo que as mulheres tenha apenas apenas um ou dois filhos, devido ao número alargado de mulheres que entram nos anos reprodutivos.

Em 2010 cerca de 27% da população mundial (30% em países menos desenvolvidos e 16% em países mais desenvolvidos) tinha menos de 15 anos. Nos próximos 14 anos, estas 1.8 mil milhões de jovens - cerca de um quarto da população mundial - irão entrar em idade reprodutiva. Estas diferenças dramáticas na estrutura etária da população nos países mais e menos desenvolvidos mostram que a maioria parte do crescimento futuro ocorrerá nos países menos desenvolvidos.


Estruturas etárias das populações dos países mais e menos desenvolvidos em 2010
(Fonte: https://goo.gl/avGVh4)

No entanto, a faixa etária que mais irá crescer será o grupo sénior - as pessoas com mais de 65 anos. A população global de seniores irá triplicar até 2050, quando uma em cada seis pessoas será sénior. Esta evolução deve-se sobretudo ao declínio das taxas de mortalidade e aos avanços da medicina que permitem alargar a nossa esperança de vida. Alguns analistas preocupam-se relativamente à forma como as sociedades irão suportar o grupo de pessoas idosas.

À medida que a estrutura etária da população mundial se altera e a percentagem de pessoas com mais de 60 anos aumenta, mais países vão começar a assistir a um declínio da sua população. O Japão tem a percentagem de idosos mais elevada e a percentagem de jovens mais baixa do Mundo. A sua população em 2010 era de 127 milhões e espera-se que vá diminuir até cerca de 95 milhões por volta de 2050. Nessa altura, aproximadamente 40% da população japonesa terá 65 ou mais anos. Na China, apesar de a população ainda não estar a diminuir, a percentagem de pessoas acima de 60 anos subirá até aos 31% em 2020. Este envelhecimento da população chinesa traduzir-se-à na diminuição da força de trabalho, limitação de fundos para alimentar o crescimento económico e em menos pessoas das gerações mais novas para suportar as pessoas mais idosas.

Pirâmides populacionais do Japão em 1950, 2005 e 2050
(Fonte: https://therationalpessimist.files.wordpress.com/2012/06/japans-population.jpg)

O rápido declínio da população pode levar a graves problemas económicos e sociais. Um país que apresenta uma taxa de fertilidade total abaixo dos 1.5 filhos por casal por um longo período, assistirá a um aumento acentuado da proporção dos idosos. Isto resultará em constrangimentos nos orçamentos governamentais porque estes indivíduos irão consumir uma maior fatia de cuidados médicos, fundos de pensões e outros serviços públicos, que são financiados por um número decrescente de contribuintes. Estes países irão também enfrentar escassez de força de trabalho a menos que confiem na imigração de trabalhadores estrangeiros. Do conjunto de países que em breve entrarão num rápido declínio da população fazem parte o Japão, a Rússia, a Alemanha, a Bulgária, a Hungria, a Ucrânia, a Sérvia, a Grécia, Portugal e a Itália. 

Fonte:
Living in the environment - G. Tyler Miller, Scott E. Spoolman

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Que factores influenciam o tamanho da população (parte 2)

O rápido crescimento da população mundial durante o último século não se deveu fundamentalmente ao crescimento das taxas de natalidade mas sim graças à descida das taxas de mortalidade, especialmente em países menos desenvolvidos. As melhorias em diversas áreas - fornecimento e distribuição de alimento, nutrição, medicina, saneamento e fontes de água potável - contribuíram para esse facto.

Dois indicadores usados para avaliar a saúde da população de uma região ou país são a esperança média de vida (o número médio de anos que um recém-nascido espera viver) e a taxa de mortalidade infantil (o número de crianças em cada 1000 nascidos que morrem antes do primeiro aniversário). Entre 1955 e 2010, a esperança média de vida aumentou de 48 para 69 anos (77 anos nos países mais desenvolvidos e 67 anos nos países menos desenvolvidos). Em 2010, o Japão tinha a esperança média de vida mais elevada - 83 anos.

Esperança média de vida no nascimento entre 1950 e 2010
(Fonte: https://healthyplanetpro.files.wordpress.com/2013/02/f-i.png)

A mortalidade infantil é vista como uma das melhores medidas para avaliar a qualidade de vida de uma sociedade porque ela reflecte o nível geral das condições de saúde e de nutrição. Uma alta mortalidade infantil normalmente indica uma falta de alimento (subnutrição), uma nutrição pobre (desnutrição) e uma incidência alta de doenças infecciosas (que surgem da ingestão de água contaminada ou da fraca resistência a doenças devido a uma situação de subnutrição ou desnutrição). A mortalidade infantil também afecta a taxa de fertilidade total. Em regiões onde as taxas de mortalidade são baixas, as mulheres tendem a ter menos filhos porque menos crianças morrem nos primeiros anos de vida.

As taxas de mortalidade infantil nos países mais e menos desenvolvidos têm vindo a descer de forma abrupta desde 1965 no entanto, mais de 4 milhões de crianças (a maioria em países menos desenvolvidos) morrem todos os anos de doenças curáveis durante o primeiro ano de vida.

Taxas de mortalidade infantil entre 1950 e 2010 (Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/1e/Infant_Mortality_Rates_-_1950-2010.png/800px-Infant_Mortality_Rates_-_1950-2010.png)

Os cientistas também medem a mortalidade dentro dos primeiros anos de vida (child mortality) em cada 1000 nados-vivos. De acordo com as Nações Unidas, este tipo de mortalidade infantil diminuiu 20% entre 1960 e 2008, o que traduziu numa queda de 20 milhões para 8.8 milhões. A causa mais comum para a mortalidade nesta faixa etária é a utilização de água contaminada para consumo que resulta em situações de diarreias e outras doenças.

Mortalidade infantil até aos 5 anos por região do globo
(Fonte: https://ourworldindata.org/wp-content/uploads/2013/05/ourworldindata_child-mortality-since-1960.png)

Um outro factor que influencia o tamanho da população é a migração: o movimento para dentro (imigração) e o movimento para fora (emigração) de uma área geográfica específica. Em 2009 mais de 190 milhões de pessoas migraram de um país para o outro, com mais de 60 milhões a saírem de países menos desenvolvidos para os mais desenvolvidos. A maioria das pessoas emigra em busca de emprego e para melhorar a sua situação económica. Mas outros factores como a perseguição religiosa, conflitos étnicos, opressão política, guerras e determinados tipos de degradação ambiental como a erosão do solo ou a falta de alimento e água levam também a que as pessoas escolham mudar de país ou região. Estima-se que existiram em 2008 cerca de 40 milhões de refugiados que deixaram o seu país devido a razões ambientais e espera-se que cerca de 1 milhão de pessoas seja adicionado a cada ano.

Mapa de refugiados climáticos em 2005
(Fonte: https://static.skepticalscience.com/images/A_Refugee_Map.png)
Fonte:
Living in the environment - G. Tyler Miller, Scott E. Spoolman

terça-feira, 20 de junho de 2017

Que factores influenciam o tamanho da população humana (Parte 1)

A população humana cresce ou diminui em determinados países, cidades e outras áreas através da combinação de três factores: nascimentos (fertilidade), mortes (mortalidade) e migração. Podemos calcular a variação da população de uma área subtraindo o número de pessoas a deixar a população (através das mortes e emigração) ao número de pessoas a entrar (através dos nascimentos e imigração) durante um período específico de tempo, normalmente um período de 1 ano.

Variação da população = (Nascimentos + Imigração) - (Mortes + Emigração)

Quando os nascimentos mais a imigração excedem as mortes e a emigração, a população cresce e quando o reverso acontece, a população diminui.

Outra medida usada em estudos de população é a taxa de fertilidade, o número de filhos nascidos durante a vida de uma mulher. Dois tipos de taxas de fertilidade que afectam o tamanho e taxa de crescimento da população de um país. O primeiro tipo, chamado de taxa de fertilidade ao nível de reposição, é o número médio de filhos que os casais necessitam de ter para substituir-los. Esta taxa é ligeiramente superior a 2 filhos por casal (2.1 em países desenvolvidos e pode chegar aos 2.5 em países menos desenvolvidos), maioritariamente porque algumas crianças morrem antes de chegar a idade reprodutiva.

O segundo tipo de taxa de fertilidade, a taxa de fertilidade total (TFT), é o número médio de filhos nascidos durante a vida reprodutiva de uma mulher. Este factor desempenha um papel chave na determinação do tamanho da população. Entre 1955 e 2010, a TFT média caiu de 2.8 para 1.7 filhos por mulher nos países desenvolvidos e de 6.2 para 2.7 nos países menos desenvolvidos. Prevê-se que a TFT média continue a descer nos países menos desenvolvidos, enquanto que nos países mais desenvolvidos deverá subir ligeiramente.

Evolução das taxa de fertilidade total por região entre 1950 e 2050
(Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Trends_in_TFR_1950-2050.png)

Taxas de natalidade e fertilidade

Muitos factores afectam a taxa de natalidade e TFT média de um país. Um deles é a importância dos filhos como parte da força de trabalho, em especial nos países menos desenvolvidos. Esta é a principal razão porque faz sentido para muitos casais pobres desses países terem um grande número de filhos.

Outro factor económico é o custo de criar e educar as crianças. Os nascimentos e as taxas de fertilidade tendem a ser mais baixas nos países mais desenvolvidos, onde essa tarefa é muito mais custosa. Por contraste, muitas crianças em países pobres têm poucas oportunidade de educação e em vez disso têm de trabalhar para ajudar as suas famílias a sobreviver.

A existência, ou a falta de sistemas de pensões privados ou públicos pode influenciar a decisão de alguns casais de quantos filhos irão ter, especialmente os casais mais pobres em países menos desenvolvidos. As pensões reduzem a necessidade dos casais de terem mais filhos para os apoiar em idade avançada.

De modo a compensar a morte infantil que é mais elevada em países mais pobres, os casais optam ter um determinado número de filhos que permita a sobrevivência do número de filhos que julgam ser necessário.

A urbanização também desempenha um papel importante dado que as pessoas em áreas urbanas têm acesso a serviços de planeamento familiar e tendem a ter menos filhos do que aqueles que vivem em ambiente rural.

Outro factor importante são as oportunidades de educação e emprego disponíveis para as mulheres. As TFTs tendem a ser baixas quando as mulheres têm acesso a educação e emprego pago fora de casa. Em países menos desenvolvidos, uma mulher com pouco ou nenhum grau de escolaridade tipicamente têm mais dois filhos do que uma mulher com educação secundária. Em quase todas as sociedades, as mulheres com mais escolaridade tendem a casar mais tarde e ter menos filhos.

As taxas de natalidade e as TFTs também são afectadas pelo acesso a abortos legais. Estimam-se que em cada ano 190 milhões de mulheres engravidam e que pelo menos 40 milhões fazem abortos, sendo que 50% deles são ilegais. Por outro lado, o acesso a métodos eficazes de contracepção também permite às mulheres controlar o número e o espaçamento com que têm filhos.

Por último, as crenças religiosas, as tradições e as normas culturais podem, em alguns países, favorecer famílias numerosas e opôr-se fortemente ao aborto e ao uso de contracepção.

Fonte:
Living in the environment  - G. Tyler Miller, Scott E. Spoolman

segunda-feira, 10 de abril de 2017

População: África e Europa em pólos distintos

Mais de metade do crescimento da população mundial até ao ano de 2050 espera-se que ocorra em África. O continente africano tem a maior alta taxa de crescimento populacional de todo o globo, crescendo a uma taxa anual de 2,55% entre 2010 e 2015. Consequentemente, das 2,4 mil milhões de pessoas que serão adicionadas ao planeta entre 2015 e 2050, 1,3 mil milhões de pessoas  nascerão em África. Projecta-se que continente asiático será o segundo a contribuir para o futuro crescimento populacional, adicionando mais 0,9 mil milhões de pessoas entre 2015 e 2050, que será seguido da América do Norte, América Latina e Caraíbas e Oceânia. Segundo a projecção média, a população europeia deverá ser inferior em 2050 relativamente a 2015.

Taxa anual média de alteração da população por continentes entre 2000-2050
(Fonte: World Population Prospects - Key findings & advance tables, 2015 Revision)

O rápido crescimento populacional em África ocorrerá mesmo que haja uma redução substancial dos níveis de fertilidade num futuro próximo. De acordo com a projecção média, a fertilidade irá diminuir de 4,7 filhos (2010-2015) para 3,1 (2045-2050), atingindo os 2,2 no período entre 2095 e 2100. Como resultado, a percentagem da global que pertence ao continente Africano irá crescer de 25% em 2050 para 39% em 2100, enquanto que a percentagem que reside em Ásia descerá de 54% em 2050 para 44% em 2100.


Taxas de fertilidade em África em 2013
(Fonte: http://www.humanosphere.org/wp-content/uploads/2014/03/20140308_mam905_595_0.png)

O crescimento populacional continua especialmente alto no grupo de 48 países designados pelas Nações Unidas como os países menos desenvolvidos, dos quais 27 são países africanos. Apesar de se prever uma diminuição da taxa de crescimento populacional deste grupo de países, a sua população espera-se que cresça de 954 milhões (em 2015) para 1,9 mil milhões (em 2050) e para 3,2 mil milhões (em 2100). Entre 2015 e 2100, a população de 33 países, a maioria países menos desenvolvidos, poderão, no mínimo, triplicar. Entre esses países, as populações de Angola, Burundi, República Democrática do Congo, Malawi, Mali, Niger, Somália, Uganda, Tanzânia e Zâmbia podem quintuplicar até 2100.

A concentração de crescimento populacional nos países mais pobres irá dificultar a tarefa dos seus governos de erradicar a pobreza e as desigualdades, combater a fome e mal-nutrição, expandir os sistemas de educação e de saúde, melhorar o fornecimento de serviços básicos e implementar outros elementos da agenda de desenvolvimento sustentável.

Em claro contraste, espera-se que as populações de 48 países ou áreas diminua entre 2015 e 2050. Em diversos países espera-se que a população possa diminuir em mais de 15%, onde se inclui a Bósnia Herzegovina, Bulgária, Croácia, Hungria, Japão, Letónia, Lituânia, Moldávia, Roménia, Sérvia e Ucrânia. A fertilidade em todos os países europeus está abaixo do nível de substituição a longo prazo (cerca 2,1 filhos por mulher, em média) e na maioria dos casos, esta situação já acontece há várias décadas. Projecta-se que a fertilidade na Europa possa aumentar de 1,6 filhos por mulher entre 2010-2015 para 1,8 entre 2045 e 2050, mas esse aumento não será suficiente para impedir a provável diminuição do tamanho da população total.

Taxas de fertilidade totais pela Europa em 2011
(Fonte: https://libraryeuroparl.files.wordpress.com/2013/05/fertility2.png)

Fonte:
World Population Prospects - Key findings & advance tables, 2015 Revision (https://esa.un.org/Unpd/wpp/Publications/Files/Key_Findings_WPP_2015.pdf)

terça-feira, 4 de abril de 2017

O retrato e o futuro da População Mundial

De acordo com a Revisão de 2015 elaborada pela Divisão da População do Departamento dos Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas, a população mundial atingiu os 7,3 mil milhões em 2015, o que significa que foram adicionados aproximadamente mil milhões de anos nos últimos 12 anos.

60% da população global vive na Ásia (4,4 mil milhões), 16% na África (1,2 mil milhões), 10% na Europa (738 milhões), 9% na América Latina e nas Caraíbas (634 milhões) e os restantes 5% na América do Norte (358 milhões) e Oceânia (39 milhões).  A China (1,4 mil milhões) e a Índia (1,3 mil milhões) continuam como os países com mais população, representando 19% e 18% da população mundial, respectivamente.


População mundial por áreas nos anos 2015, 2030, 2050 e 2010, de acordo com a projecção média
(Fonte: World Population Prospects - Key findings & advance tables, 2015 Revision)

Em 2015, 50,4% da população mundial é masculina e 49,6% é feminina. A mediana da idade da população global, que se traduz, na idade em que metade da população é mais velha e a outra metade é mais jovem, é de 29,6 anos. Cerca de um quarto (26%) da população tem menos de 15 anos, 62% situam-se na faixa etária 15-69 anos e 12 % têm mais de 60 anos.

Distribuição da População Mundial por idade e sexo em 2015
(Fonte: World Population Prospects - Key findings & advance tables, 2015 Revision)

Actualmente, a população mundial continua a crescer mas a um ritmo mais baixo do que no passado. Há 10 anos atrás, a população mundial estava a crescer a 1,24% ao ano. Hoje, assistimos a um crescimento de 1,18% por ano, ou seja, aproximadamente 83 milhões de pessoas são adicionadas anualmente. Projecta-se que a população mundial cresça em mais de mil milhões de pessoas dentro dos próximos 15 anos, atingindo os 8,5 mil milhões em 2030, 9,7 mil milhões em 2050 e 11,2 mil milhões em 2100.

Estimativas da População Mundial entre 2015 e 2100
(Fonte: World Population Prospects - Key findings & advance tables, 2015 Revision)

A projecção média pressupõe um declínio da fertilidade para os países onde as grandes famílias ainda prevalecem bem como um ligeiro aumento da fertilidade em vários países com menos do que dois filhos por mulher em média. Projecta-se também as possibilidades de sobrevivência aumentem em todos os países. Apesar de algum grau de incerteza, pode-se afirmar com 95% de grau de confiança que a população global estará entre os 8,4 e os 8,6 mil milhões em 2030 e entre os 9,5 mil e os 13,3 mil milhões em 2100. Espera-se que a população continue a crescer até ao final do século, mas existe cerca de 23% de hipótese que possa estabilizar ou mesmo entrar em declínio até 2100.

Fonte:
World Population Prospects - Key findings & advance tables, 2015 Revision (https://esa.un.org/Unpd/wpp/Publications/Files/Key_Findings_WPP_2015.pdf)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

População e a transição demográfica

O crescimento da população é, indubitavelmente, uma das principais causas subjacentes à maioria dos problemas ambientais que hoje enfrentamos. 

A população mundial continua a aumentar em cerca de 80 milhões de pessoas por ano, com a maior parte do crescimento a decorrer nos países menos desenvolvidos. Até 2050, de acordo com as projecções médias das Nações Unidas, a população mundial irá aumentar até 9,6 mil milhões de pessoas e irá continuar a crescer depois de 2100.

Fonte: https://www.allianz.com/v_1428562729000/en/about_us/open-knowledge/img/too_many_people_z_52580.jpg

O conceito de transição demográfica é um dos conceitos chave é fundamental para ajudar a compreender as dinâmicas de crescimento das populações.

Durante os últimos 200 anos, os países tiveram padrões similares de mudança de altas taxas de mortalidade para baixas taxas de mortalidade, levando os demógrafos a desenvolver um modelo denominado de transição demográfica. Esta teoria diz que a maioria dos países caracterizavam-se por altas taxas de natalidade e mortalidade e baixo crescimento populacional, numa fase inicial (Fase 1). Durante o período de transição (Fase 2) - um decréscimo na mortalidade precede e é mais acelerado do que o decréscimo na fertilidade, que resulta num crescimento populacional devido à diferença entre nascimentos e mortes. Na Fase 3, as taxas de natalidade descem até que na Fase 4 as mesmas atingem o mesmo nível das taxas de mortalidade e o crescimento populacional desacelera.

Embora a maioria dos países seguiram este padrão de evolução demográfica, o timing da transição e o ritmo do declínio da mortalidade e da fertilidade tem variado bastante nos diversos países, resultando em taxas de crescimento populacional diferentes. Na Europa e na América do Norte, esta transição ocorreu durante vários séculos. As taxas de mortalidade e de natalidade decresceram face à melhoria das condições de vida e de saúde, aumento da idade no casamento, disponibilidade de planeamento familiar, diminuição do tamanho da família e ao aumento do nível de educação e de emprego das mulheres.

Em muitos países em desenvolvimento, a transição demográfica começou em meados do século 20 e as mudanças ocorreram num período de poucas décadas. Actualmente, muitos países em desenvolvimento na Ásia e América Latina apresentam baixas taxas de mortalidade e fertilidade e os seus crescimentos populacionais estão a abrandar. Paralelamente, os países menos desenvolvidos estão ainda na fase inicial ou intermediária da transição com as taxas de natalidade e mortalidade a diminuir, mas relativamente elevadas quando comparadas com o resto do Mundo.

Modelo da transição demográfica
(Fonte: http://www.prb.org/pdf14/guide-population-development.pdf)
Actualmente os demógrafos estão a discutir uma quinta fase que ocorre quando um baixo crescimento populacional de um país se transforma num decréscimo da população. Isto ocorre quando as taxas de natalidade caem para níveis em que as taxas de fertilidade estão abaixo do nível de reposição, o que significa que em termos médios uma mulher tem menos do que 2 filhos durante a sua vida.

Modelo da transição demográfica com 5 fases (Fonte: http://francedemographics.weebly.com/uploads/5/8/7/9/5879699/398332822.jpg?876)

Mapa da transição demográfica em função da fase em que os países se encontram
(Fonte: http://www.prb.org/pdf14/guide-population-development.pdf)

Será fundamental que os líderes entendam em que fase se encontram os seus países, como podem promover o progresso para a diminuição das taxas de natalidade e mortalidade e finalmente como planear para um crescimento desacelerado, um declínio da população e uma eventual estabilização.

Fonte:
A Practical Guide to Population and Development, Population Reference Bureau (http://www.prb.org/pdf14/guide-population-development.pdf)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Equação IPAT

Uma das primeiras tentativas para descrever o papel de múltiplos factores na determinação da degradação ambiental foi a equação IPAT. Paul Ehrlich e John Holdren apresentaram numa série de artigos entre 1970 e 1974 a seguinte equação:

Equação IPAT
(Fonte: http://pierie.nl/wp-content/uploads/2012/01/IPAT-equation.jpg)

I - Impacto: representa os impactos de uma determinada acção no ambiente
P - População: número de pessoas numa determinada área
A - Afluência: nível de consumo per capita
T - Tecnologia: impacto por unidade de tecnologia

Esta fórmula foi inicialmente usada para dar ênfase à contribuição do crescimento populacional à escala global para a degradação ambiental, numa altura em que a população mundial era metade do que é actualmente. 

Para além de destacar a importância da contribuição da população para os problemas ambientais, esta equação fez outras duas contribuições importantes. Chamou a atenção para o facto de os problemas ambientais envolverem mais do que a poluição e que são motivados por diversos factores em acção ao mesmo tempo que produzem um efeito combinado. Posterior investigação, que usou a equação, indica que a suposição de uma simples relação multiplicativa entre os principais factores não se verifica - a duplicação da população, por exemplo, não se traduz numa duplicação do impacto ambiental. As abordagens que permitem uma ponderação diferenciada para cada factor tem sido mais bem sucedida.

As tentativas de melhorar o poder de previsão da equação têm sido de forma a incorporar uma variação de factores sociais. políticos e tecnológicos. Alguns dos estudos acentuam a utilidade da equação para as políticas de desenvolvimento através da indicação da contribuição de diferentes factores e assim os recursos podem ser melhor direccionados para reduzir o impacto de forma mais efectiva. No entanto, tornar a fórmula mais complexa também torna mais difícil aplicá-la.

Até à data, as aplicações da equação IPAT têm-se limitado à avaliação de uma única medida de impacto ambiental, como a poluição atmosférica. Por exemplo, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas aplicou a IPAT para estudos dos níveis de dióxido de carbono.

A equação IPAT ajuda-nos a entender quais os factores que aumentam ou diminuem o impacto ambiental e mostra-nos como existem múltiplos caminhos para reduzir os efeitos indesejados. Por exemplo, países diferentes podem focar-se em factores diferentes que reduzem o impacto global: países mais ricos podem contribuir mais se diminuírem o seu nível de consumo (A); os países mais pobres contribuir mais se reduzirem a sua população (P) e os antigos países socialistas podem contribuir mais se tornarem as suas tecnologias mais eficientes.

Fontes:

sábado, 23 de janeiro de 2016

Malthus e a Teoria Malthusiana

Thomas Malthus foi um demógrafo e economista inglês que publicou em 1798 o Ensaio sobre o Princípio da População. Surgiu como a primeira teoria demográfica teve grande impacto e é, até hoje, a mais popular entre todas, apesar das falhas que apresenta.

Thomas Malthus
A teoria Malthusiana baseia-se no Princípio da escassez em que a população humana tende a crescer mais rapidamente que a produção de alimentos o que torna o conceito de escassez de extrema importância para a economia.

Segundo Thomas Malthus, pode-se considerar dois postulados, sendo o primeiro que o alimento é necessário à existência do homem, e o segundo que a paixão entre os sexos é necessária e permanecerá aproximadamente no seu presente estado. Supõe-se então que a capacidade de crescimento da população é indefinidamente maior que a capacidade da terra de produzir meios de subsistência para o homem,

Na perspectiva de Malthus, existiam dois tipos de obstáculos. Os obstáculos positivos que contribuíam para o aumento da taxa de mortalidade (fome, desnutrição, epidemias, doenças, pragas, guerras, etc.). Os obstáculos preventivos que reduziam a taxa de natalidade como as práticas anticoncepcionais voluntárias.

O crescimento da população, os meios de subsistência e as causas da pobreza em plena Revolução Industrial são os problemas centrais analisados por Malthus. Segundo o autor, "pode-se seguramente afirmar que, se não existir nenhum controlo, a população dobra de 25 em 25 anos ou crescerá em progressão geométrica (1,2,4,8,16,32,64,128,256,512,...). Pode-se afirmar também que, dadas as actuais condições médias da terra, que os meios de subsistência, nas mais favoráveis circunstâncias, só poderiam aumentar, no máximo, em progressão aritmética (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,...). Malthus conclui também que "... o poder da população é tão superior ao poder do planeta de fornecer subsistência ao homem que, de uma maneira ou de outra a morte prematura acabará por visitar a raça humana".
Teoria de Malthus - População vs. Recursos
Assim, Malthus concluiu que o ritmo de crescimento populacional seria mais acelerado do que o ritmo de crescimento de alimentos (progressão geométrica vs progressão aritmética) e que no futuro as possibilidades de aumento da área cultivada estariam esgotadas, pois todos os continentes estariam completamente ocupados pela agropecuária e, no entanto, a população mundial continuaria a crescer.

Malthus também elaborou uma Teoria da População, cujo objectivo principal era substituir os obstáculos positivos (guerras, pobreza, etc.) pela restrição moral.

A "queda progressiva do salário real da mão-de-obra reduz o bem estar da população". Para amenizar esse problema, Malthus recomendava o controlo da natalidade através da abstinência sexual, ou seja, o homem não deve casar antes de possuir condições económicas para sustentar a sua família.

Malthus criou a expressão "Catástrofe Malthusiana" para designar a situação na qual, como consequência da insuficiência de recursos alimentares para sustentar uma população em crescimento geométrico, é inevitável que uma grande percentagem da população pereça graças à fome e à doença.

Malthus foi um dos primeiros economistas a vincular crescimento demográfico e crescimento económico. É verdade que a sua teoria não se confirmou nos países europeus industrializados, mas apresenta certa pertinência nos países do Terceiro Mundo, onde certos governos adoptaram políticas malthusianas de controlo da natalidade.


Fontes:

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Padrões de urbanização no Mundo

Algo notável aconteceu em 2008 de acordo com os dados oficiais das Nações Unidas: pela primeira vez na história, mais de 50% da população humana vive nas cidades.

Existem uma série de factores que tornam as cidades distintas dos outros lugares. Primeiro, as cidades têm uma concentração elevada de população. Por definição, uma área urbana é uma área com uma determinada densidade populacional mínima, normalmente considerada de 2000 ou 5000 pessoas. Obviamente que as maiores cidades não têm milhares mas sim milhões de habitantes e as mega-cidades têm mais de 10  milhões de habitantes.

As maiores cidades do Mundo em população
(Fonte: http://www.newgeography.com/files/cox-wua-16-3.jpg)

Segundo, as cidades distinguem-se pelo tipo de actividades económicas que albergam. Enquanto que uma pequena parte da actividade dizem respeito ao sector primário, a maior parte corresponde a actividades do sector da indústria e serviços. Em países mais ricos, o sector dos serviços é dominante.

Terceiro, as cidades são áreas importantes de produtividade para as economias nacionais. O output médio por pessoas em áreas urbanas é normalmente duas a três vezes maior do que em áreas rurais dentro do mesmo país.

Quarto, as cidades são locais com uma quantidade enorme de inovação, que surge dentro de universidades, laboratórios de investigação e grandes empresas, na procura de lançar novos produtos para o mercado.

Quinto, as cidades são centros de negócios, onde uma quantidade tremenda da actividade envolve a troca de bens. As cidades existem de facto como centro de concentração para facilitar o comércio, a troca e contratos, suportados pela proximidade entre compradores e vendedores.

Sexto, as grandes cidades situam-se na costa ou perto dela para tirar vantagem do transporte marítimo de mercadorias e assim baixar o custo dos produtos. Algumas situam-se nos estuários de grandes rios.

Sétimo, as cidades são locais com rápido crescimento populacional e os únicos locais onde a população está a crescer, já que a população rural já atingiu o seu pico.

Oitavo, as cidades são frequentemente locais de grande desigualdade, colocando ricos e pobres a viver lado a lado.

Nono, as cidades gozam de enormes vantagens de economias de escala e de oportunidades, significando que a sua produtividade é melhorada pela dimensão dos mercados que oferecem, e assim tornam possível uma enorme gama de actividades, profundidade de especializações e enorme escala de produção.

Décimo, as cidades enfrentam grandes desafios chamados de "externalidades urbanas", resultado da grande densidade populacional e das actividades económicas. As cidades têm que lidar com a poluição da água e do ar, grandes congestionamentos de trânsito, rápida transmissão de doenças, se não devidamente controladas e têm potencial para fenómenos de crime e violência.

À medida que a economia mundial continua a crescer e a desenvolver-se no século XXI e que a produtividade rural aumenta, espera-se que as áreas urbanas continuem a crescer. A Divisão da População das Nações Unidas prevê que as áreas urbanas representem 60% da população até 2030 e 67% até 2050. Por outras palavras, a população passará de 7.2 mil milhões para mais de 8 mil milhões.

Evolução da população rural, global e total a nível global
(Fonte: http://ubclfs-wmc.landfood.ubc.ca/webapp/media/WID/water-issues-in-international-development/global-water-issues/Urban-Rural_3.png)

Ásia e África são as duas regiões mais dinâmicas no que toca à urbanização. Algo notável está a acontecer: a distribuição global da urbanização está a mudar. De acordo a figura abaixo, em 1950, 38% da população urbana estava na Europa. Juntamente com a América do Norte, constituam 53% da população urbana. Espera que até 2050, a Europa terá apenas 9% da população urbana, de acordo com as Nações Unidas.

Percentagem da população em áreas urbanas por região entre 1950-2050
(Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c8/Percentage_of_Population_Living_in_urban_areas_1950-2050.png)

O mesmo acontece com a dinâmica das grandes cidades. Em 1950, existiam apenas 2 mega-cidades com mais de 10 milhões de pessoas, ambas em países desenvolvidos: Tóquio e Nova Iorque. Em 1990, existiam 10 mega-cidades: 4 em países com rendimentos mais elevados e 6 em países em desenvolvimento. Em 2011, existiam 23 mega-cidades: apenas 5 em países com rendimentos elevados e 17 em países em desenvolvimento. Em 2015, existiam 29 aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes e segundo as previsões das Nações Unidas existirão 36 mega-cidades, sendo que somente 7 delas estarão nos países mais desenvolvidos.

Distribuição da população urbana mundial em 1950, 2011, 2050
(Fonte: https://goo.gl/wkHWwc)
Fonte:
The Age of Sustainable Development - Jeffrey D. Sachs

domingo, 13 de dezembro de 2015

Desigualdade entre áreas urbanas e rurais

No âmbito das desigualdades, a diferença entre a vida urbana e rural é talvez a variação mais extrema entre países. Antes da Revolução Industrial, quase toda a população mundial, cerca de 90%, vivia em ambiente rural. No entanto, o mundo está a tornar-se cada vez mais urbanizado, alterando as vidas na sua essência e levando a grandes diferenças a nível de cada país.

Não existe uma definição oficial a nível internacional de área urbana. Genericamente, numa área urbana reside pelos menos alguns milhares de pessoas numa área densamente habitada. O limiar que divide uma área urbana de uma área rural varia de país para país. Alguns adoptam o valor de 2000 pessoas, outros 5000.

A diferença entre áreas urbanas e rurais tem algumas características básicas que são fundamentais para o processo de desenvolvimento económico e a natureza das desigualdades de cada país. Estas são algumas delas:
  • A agricultura é o principal suporte das áreas rurais, enquanto as áreas urbanas dependem da indústria e dos serviços.
  • O rendimento per capita tende a ser mais elevado em áreas urbanas, o que motiva o fluxo para as áreas urbanas.
  • As populações rurais fixam-se em áreas férteis para a agricultura. As populações urbanas tendem a localizar-se na costa ou ao longo de rios.
  • A densidade populacional é superior nas áreas urbanas com milhares de pessoas por quilómetro quadrado. Nas áreas rurais, tipicamente existem menos de 100 pessoas por quilómetro quadrado.
  • A qualidade dos serviços públicos tende a ser diferente e por isso os níveis de rendimento, os padrões dos serviços de saúde e no geral os níveis de vida tendem a ser mais elevados nas áreas urbanas.
  • A taxa de fecundidade (o número médio de filhos por mulher) é mais elevada nas áreas rurais.
As zonas mais ricas do globo tendem a ser mais urbanizadas e as zonas mais pobres tendem a ser mais rurais. As regiões mais urbanas situam fundamentalmente na Europa ocidental e no continente americano, com mais de 75% da população a viver nessas zonas. Enquanto que, os países com mais populações rurais encontram-se na África tropical e continente asiático.

O processo de urbanização está a ocorrer rapidamente e é crítico para o desenvolvimento económico. É em África onde as taxas de urbanização crescem mais rapidamente e frequentemente chegam perto dos 5% ao ano, o que significa que são necessários 14 anos para duplicar a percentagem de áreas urbanas nesses locais.

Taxas de crescimento das áreas urbanas, 2007
(Fonte: http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2007/09/images/picture4.gif)
Espera-se que a população atinja os 8.000 milhões até 2025 e 9.000 milhões até 2040. A nova população deverá viver em áreas urbanas, dado que o total da população rural permanecerá constante à volta de 3.300 milhões até 2035 e depois diminuirá ligeiramente até 2050. O que significa que o futuro crescimento da população será crescimento de população urbana. A proporção de áreas urbanas irá aumentar de 53% em 2013 para cerca de 60% até 2030 e 67% até 2050. Cidades prósperas, saudáveis e resilientes vão ser o desafio central do desenvolvimento sustentável.


Fonte:
The Age of Sustainable Development (Jeffrey D. Sachs)