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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Assistência Oficial ao Desenvolvimento

Através de investimentos chave na agricultura, educação, saúde, infra-estruturas e empreendedorismo feminino, os países da África subsariana e sul da Ásia podem subir a escada do desenvolvimento, ultrapassando assim a "armadilha" da pobreza, e assim criar condições para a sustentabilidade do seu crescimento e para a saída da pobreza extrema.

O conceito de assistência oficial ao desenvolvimento (AOD), significando assistência ao desenvolvimento por parte governos e agências internacionais, está presente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos lançaram o famoso Plano Marshall para ajudar a reconstrução dos países europeus depois da devastação da guerra. Este plano proporcionou uma injecção temporária de fundos, na forma de subvenção quase na sua totalidade, para impulsionar a renovação da vida económica e o crescimento sustentável. O Plano Marshall serviu assim de inspiração para o crescimento de um sistema de subvenções e empréstimos com juros baixos, não só para reconstrução no pós-guerra mas também para impulsar o crescimento económico a longo prazo.

Segundo os seus defensores, a AOD deverá ser uma medida temporária para ajudar um país pobre na execução dos investimentos cruciais necessários. A ajuda não é uma necessidade ou uma solução permanente. Os países que recebem ajuda poderão atingir um nível de rendimento que lhes permita não depender dela na totalidade. A China e a Coreia são dois casos de países que recebiam ajuda e que prescindiram dela e, até mesmo se tornaram países doadores recentemente.

Por volta de 1970, a AOD tornou-se um pilar básico da comunidade internacional. O relatório Partners in Development sugeriu que os países mais ricos deveriam doar cerca de 1% do seu produto national bruto (PNB). Desse 1%, 0.7% deveria ser doado através de canais oficiais, principalmente subvenções e empréstimos entre governos. Os restantes 0.3% deveriam surgir de contribuições privadas: empresas, fundações, filantropo e instituições de caridade. Com esta informação, as Nações Unidas adoptou o objectivo que os países mais ricos deveriam contribuir com 0.7 % do seu produto interno para AOD.

Assistência oficial ao desenvolvimento em % do PNB em 2014 
(Fonte: http://www.oecd.org/media/oecdorg/directorates/developmentco-operationdirectoratedcd-dac/financingsustainabledev/Net%20ODA%20in%202014%20as%20percentage%20of%20GNI-640x480.png)
O gráfico acima mostra os doadores de AOD em 2014. Apenas 5 países entre os doadores chegam ao objectivo de 0.7 % do produto interno: Suécia, Luxemburgo, Noruega, Dinamarca e Reino Unido. A Suécia e o Luxemburgo atingem o 1%.

O total do produto combinado dos países doadores é cerca de 40 biliões de dólares por ano. Se os países contribuíssem de acordo com o objectivo das Nações Unidas, a ajuda no total seria de aproximadamente 280 mil milhões de dólares por ano. Na verdade, a ajuda ronda os 120 mil milhões ou seja, apenas 0.3% do produto bruto dos países doadores.

Assistência oficial ao desenvolvimento em valores absolutos em 2014
(Fonte:  http://www.oecd.org/media/oecdorg/directorates/developmentco-operationdirectoratedcd-dac/financingsustainabledev/Net%20ODA%20in%202014-640x480.png)

Em termos absolutos, os países que mais contribuíam em 2008 eram os Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Japão, com claro destaque para os primeiros que distribuem 26 mil milhões de dólares.

Depois do ano 2000, assistiu-se a um aumento significativo de AOD na saúde que foi fundamental para o controlo da SIDA, malária e tuberculose e para assegurar boas condições para a mães e os recém-nascidos nos primeiros dias de vida. Essa ajuda também pode ajudar a assegurar que as crianças recebam uma nutrição adequada e que possam frequentar a escola.

A AOD pode fazer uma enorme diferença quando usada para o real propósito do desenvolvimento e numa base profissional dentro de uma correcta análise diferencial das necessidade de um país pobre. Esta ajuda pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma saída da "armadilha" da pobreza.

Fonte: 
The Age of Sustainable Development (Jeffrey D. Sachs)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Análise diferencial da pobreza

Cerca de 1.000 milhões de pessoas vivem ainda na pobreza extrema. Esta pobreza está concentrada na África subsariana e sul da Ásia, mas existem bolsas de pobreza noutras parte do mundo como no Haiti, Afeganistão e Laos.



Através de uma análise diferencial, podemos identificar sete categorias principais que estão na base da existência da pobreza:

1. Quando um país está na chamada "armadilha" da pobreza que significa que o país é demasiado pobre para fazer os investimentos básicos que necessita para escapar da privação material e atingir crescimento económico.

2. A pobreza pode resultar de más políticas económicas, como a escolha errada da estratégia de investimentos, fecho das fronteiras quando o comércio internacional faria mais sentido ou a escolha da planificação económica em vez de um sistema de mercado.

3. A pobreza pode reflectir o estado de insolvência financeira do governo de modo a que impeça o investimento público em vias de comunicação, escolas, clínicas e a contratação de profissionais como médicos, professores e engenheiros.

4. A pobreza pode resultar de alguns aspectos relacionados quando a sua geografia. Um país pode ser cercado por terra, o que pode dificultar o comércio; pode estar localizado numa zona montanhosa e estar impedido da prática da agricultura ou possuir uma capacidade de produção low-cost; pode enfrentar epidemias como a malária ou pode estar altamente vulnerável a repetidos desastres naturais como terramotos, tsunamis, ciclones tropicais (furações e tufões), secas ou cheias. 

5. O país pode sofrer de má governação. A corrupção, a ineficiência e a incompetência quando levadas a um extremo podem ser um grande entrave ao crescimento económico.

6. Outro factor que contribuir para a continuação da pobreza podem ser as barreiras culturais. Um exemplo importante são as sociedades que continuam a discriminar as mulheres e adolescentes. As adolescentes do sexo feminino podem ter pouca ou nenhuma hipótese de frequentar a escola e espera-se que casem muito cedo e que tenham muitos filhos, mesmo quando a família é demasiado empobrecida.

7. O último factor é a geopolítica, as relações políticas e de segurança de um país com os seus vizinhos, aliados e inimigos. Se um país está protegido de um ataque físico, pode gozar de soberania e estar apto a fazer comércio internacional com outros países e assim favorecer o desenvolvimento económico.

Esquema da armadilha da pobreza
(Fonte: http://beyzac.iics-k12.com/files/2014/08/Screen-Shot-2014-08-25-at-12.32.51-AM.png)

Um ponto fundamental é que estes problemas não se aplicam de modo igual a todos os países. De facto, algumas categorias são importantes para alguns países e outras categorias relevantes para outros. Não existe uma explicação única para a persistência da pobreza. As circunstâncias locais, a história e o contexto são todos factores importantes.

Para a maioria da África subsariana, o diagnóstico mais correcto é a primeira categoria - a "armadilha" da pobreza. No passado, apesar de estarem conscientes dos investimentos necessários em saúde, educação e infraestruturas básicas, os governos africanos não possuíam os meios financeiros para concretizar os seus planos.

Existem duas principais formas de os países se livrarem desta "armadilha". A primeira forma é a contracção de dívidas para realizarem os investimentos e esperar que o futuro desenvolvimento económico gere retorno para pagar essas mesmas dívidas. A segunda forma é receber assistência temporária por parte de governos estrangeiros, empresas, fundações e instituições internacionais. para financiar as necessidades mais urgentes. Quando os governos e as agências oficiais prestam ajuda, chamamos de assistência oficial ao desenvolvimento. No caso da ajuda por parte de organizações não governamentais e fundações privadas, chamamos de assistência privada ao desenvolvimento.

Fonte: 
The Age of Sustainable Development (Jeffrey D. Sachs)