quarta-feira, 16 de março de 2016

Pegada ecológica

O fornecimento de recursos renováveis às populações resulta em desperdícios e poluição e pode ter um enorme impacto ambiental. Podemos medir esse impacto através da pegada ecológica - a quantidade de área biologicamente produtiva  e de água necessárias para fornecer às pessoas, de um país ou área em particular, uma quantidade indefinida de recursos renováveis e para absorver e reciclar os desperdícios e poluição produzidos pela utilização de cada recurso. A pegada ecológica per capita é a pegada ecológica média de um indivíduo num dado país ou área.

Se a pegada ecológica total de um país (ou o mundo) é maior do que a sua capacidade biológica (biocapacidade) para reabastecer os seus recursos renováveis e para absorver os desperdícios e poluição resultantes, diz-se que tem um défice ecológico. Por outras palavras, existe uma situação de insustentabilidade em que se esgota o capital natural em vez de se depender apenas do rendimento gerado por esse capital.

Pegada ecológica global entre 1961 e 2007
(Fonte: http://assets.wwf.ca/img/original/lpr2010_figure2.jpg)
Em 2008, o World Wildlife Fund (WWF) e a Global Footprint Network estimaram que a pegada ecológica global excedeu a capacidade biológica da Terra para suportar os humanos e outras formas de vida em pelos menos 30%. Isto significa que a humanidade vive de forma insustentável. De acordo com o WWF, necessitamos aproximadamente o equivalente a pelo menos 1.3 planetas Terra para fornecer uma quantidade de recursos renováveis infinita (de acordo com o consumo actual per capita) e para absorver a poluição e desperdícios resultantes. Se a tendência de crescimento da população mundial e da taxa média de uso de recursos renováveis continuarem como as projecções indicam, por volta de 2035, iremos necessitar o equivalente a 2 planetas Terra.

Alguns analistas da pegada ecológica tentaram mostrar esta medida em termos da área de solo necessário para produzir os recursos utilizados. De acordo com um estudo,  a pegada ecológica mundial per capita equivale a 5 campos de futebol. Nos Estados Unidos esse valor ascende a 18 campos de futebol, enquanto que na Alemanha e na China, equivale a 8 e a 4, respectivamente.

Pegada ecológica per capita por país
(Fonte: http://www.footprintnetwork.org/images/LPR-Figure-Data.gif)
Atendendo à pegada ecológica per capita, os 10 países que apresentam os índices mais elevados são: Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Dinamarca, Bélgica, Trindade e Tobago, Singapura, Estados Unidos, Bahrain e Suécia. Se considerarmos a pegada ecológica total, a China, os Estados Unidos, a Índia, o Brasil e a Rússia são os países que mais contribuem em termos globais.

Ao compararmos a pegada ecológica e a biocapacidade de um país, podemos calcular o seu crédito ecológico (no caso da biocapacidade ser superior à pegada ecológica) ou o seu débito ecológico, se a pegada for superior à sua biocapacidade. No mapa abaixo podemos observar de uma forma mais global, quais as zonas que apresentam maiores créditos/débitos ecológicos.

Pegada ecológica vs biocapacidade
 (Fonte: http://www.footprintnetwork.org/images/Biocapacity_Deficit_Reserve_2011data.jpg)

Fontes:
Living in the Environment - Miller & Spoolman
Living Planet Report (2014)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Equação IPAT

Uma das primeiras tentativas para descrever o papel de múltiplos factores na determinação da degradação ambiental foi a equação IPAT. Paul Ehrlich e John Holdren apresentaram numa série de artigos entre 1970 e 1974 a seguinte equação:

Equação IPAT
(Fonte: http://pierie.nl/wp-content/uploads/2012/01/IPAT-equation.jpg)

I - Impacto: representa os impactos de uma determinada acção no ambiente
P - População: número de pessoas numa determinada área
A - Afluência: nível de consumo per capita
T - Tecnologia: impacto por unidade de tecnologia

Esta fórmula foi inicialmente usada para dar ênfase à contribuição do crescimento populacional à escala global para a degradação ambiental, numa altura em que a população mundial era metade do que é actualmente. 

Para além de destacar a importância da contribuição da população para os problemas ambientais, esta equação fez outras duas contribuições importantes. Chamou a atenção para o facto de os problemas ambientais envolverem mais do que a poluição e que são motivados por diversos factores em acção ao mesmo tempo que produzem um efeito combinado. Posterior investigação, que usou a equação, indica que a suposição de uma simples relação multiplicativa entre os principais factores não se verifica - a duplicação da população, por exemplo, não se traduz numa duplicação do impacto ambiental. As abordagens que permitem uma ponderação diferenciada para cada factor tem sido mais bem sucedida.

As tentativas de melhorar o poder de previsão da equação têm sido de forma a incorporar uma variação de factores sociais. políticos e tecnológicos. Alguns dos estudos acentuam a utilidade da equação para as políticas de desenvolvimento através da indicação da contribuição de diferentes factores e assim os recursos podem ser melhor direccionados para reduzir o impacto de forma mais efectiva. No entanto, tornar a fórmula mais complexa também torna mais difícil aplicá-la.

Até à data, as aplicações da equação IPAT têm-se limitado à avaliação de uma única medida de impacto ambiental, como a poluição atmosférica. Por exemplo, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas aplicou a IPAT para estudos dos níveis de dióxido de carbono.

A equação IPAT ajuda-nos a entender quais os factores que aumentam ou diminuem o impacto ambiental e mostra-nos como existem múltiplos caminhos para reduzir os efeitos indesejados. Por exemplo, países diferentes podem focar-se em factores diferentes que reduzem o impacto global: países mais ricos podem contribuir mais se diminuírem o seu nível de consumo (A); os países mais pobres contribuir mais se reduzirem a sua população (P) e os antigos países socialistas podem contribuir mais se tornarem as suas tecnologias mais eficientes.

Fontes:

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A tragédia dos comuns

Existem três tipos de propriedade ou direitos de acesso a recursos. Um é a propriedade privada, onde os indivíduos ou as empresas detêm o direito de acesso ou exploração de terreno, minerais e outros recursos. O segundo é a propriedade comum, onde os direitos de acesso a certos recursos pertencem a grandes grupos de indivíduos. Da terceira categoria fazem parte os recursos renováveis de livre acesso, que não pertencem a nenhum indivíduo, empresa ou nação, e que estão disponíveis por um pequeno preço ou de forma gratuita. Exemplos desses recursos partilhados incluem a atmosfera, as águas de subterrâneas, os oceanos e a vida marinha.

Muitas propriedades comuns e recursos de livre acesso têm sido degradados. Em 1968, o biólogo Garrett Hardin (1915-2003) designou esta degradação de tragédia dos comuns. Este fenómeno ocorre pelo raciocínio de cada utilizador: "Se eu não usar este recurso, alguém usará. A pequena parte que uso ou poluo não é suficientemente grande para ter importância e de qualquer forma isto é um recurso renovável."
Quando o número de utilizadores é pequeno, esta lógica aplica-se, no entanto, o efeito cumulativo de muitas pessoas a tentarem explorar um recurso partilhado, pode levar à sua degradação e finalmente ao seu esgotamento ou destruição. Tal degradação ameaça a nossa capacidade de assegurar a sua sustentabilidade económica e ambiental a longo-prazo dos recursos de livre acesso.

Tragedy of the Commons or The Problem with Open Access 

Para combater e evitar a tragédia dos comuns, uma das formas é a acção individual que está ligada com a nossa responsabilidade de serem bons guardiões, no entanto, existem algumas limitações mencionadas por Hardin: 1) Não é psicologicamente saudável forçar as pessoas a agir contra os seus próprios interesses, 2) Discrimina pessoas com boa consciência, que serão menos bem sucedidas e 3) Não resultará no longo prazo. As pessoas sem consciência serão mais bem sucedidas do que as outras e os seus valores dominarão o sistema.

A outra estratégia pode ser introduzir governança interna e normas sociais na utilização destes recursos, embora seja fundamental conhecermos os outros utilizadores e existir boa comunicação.

Uma outra alternativa é introduzir mecanismos de governança externa em que os governos criam leis e regulamentos que limitam o uso de determinados recursos como limitar a quantidade de peixe extraída dos mares ou regulamentar  a quantidade de poluentes que podem ser lançados para a atmosfera e para os oceanos. Contudo, a corrupção, a falta de informação, as actividades ilegais e o facto de existirem organizações mundiais a gerirem estes recursos, podem enfraquecer a aplicação deste tipo de governança.

Quando estas três alternativas falham, o último recurso poderá ser a conversão destes recursos em propriedade privada. A razão subjacente é que quando possuímos algo, é mais provável que cuidemos melhor do nosso investimento. No entanto, esta abordagem não é muito prática uma vez que não podemos dividir a atmosfera e os oceanos e vendê-los como propriedade privada.

Fontes:

Fronteiras do Planeta

Em 2009, um grupo de cientistas, liderado por Johan Rockström do Centro de Resiliência de Estocolmo e Will Steffen da Universidade Nacional Australiana, desenvolveu o conceito de fronteiras do Planeta, identificando as nove propriedades relacionadas com as mudanças no ambiente provocadas pelo Homem. A ciência mostra que estes nove processos e sistemas regulam a estabilidade e resiliência do sistema terrestre - as interacções da terra, oceanos, atmosfera e a vida que juntos proporcionam as condições das quais as nossas sociedades dependem.

As 9 fronteiras do Planeta: os limites e o progresso até 2009
(Fonte: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/21/f3/d3/21f3d3d33d4bf0c28789c8f0d3e5756c--planet-s-royal-society.jpg)

1) A primeira e mais importante fronteira está relacionada com as alterações climáticas causadas pelo Homem, que são resultado dos níveis crescentes de gases com efeito de estufa (GEE) na atmosfera. Os GEE incluem o dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e alguns químicos industriais. À medida que a sua concentração aumenta na atmosfera, o planeta aquece. Este aumento, provocado pela actividade industrial, tem aumentado drasticamente no século passado, e a Terra já aqueceu cerca de 0,9º celsius, comparando com as temperaturas antes da Revolução Industrial. Estas alterações no clima são especialmente ameaçadoras pelos danos que podem provocar no fornecimento de alimento e na sobrevivência de espécies, pelo aumento da intensidade das tempestades e pela subida do nível do mar, que podem alterar drasticamente ou destruir a vida em muitas partes do mundo. 

2) A segunda fronteira do planeta - acidificação do oceano - está relacionada com a primeira. Os oceanos tornam-se mais ácidos à medida que as concentrações de dióxido de carbono aumentam. O dióxido de carbono dissolve-se no oceano, produzindo ácido carbónico. O ácido carbónico divide-se num ião de hidrogénio e bicarbonato. O aumento de iões de hidrogénio significa o aumento da acidez dos oceanos. Este aumento ameaça várias formas de vida marinha, incluindo corais, crustáceos e plankton, pela dificuldade acrescida para estas espécies de construir as suas estruturas.

3) A terceira fronteira é a camada do ozono. Nos anos 70, cientistas descobriram que certos químicos industriais chamados Clorofluorcarbonetos (CFC), que eram usados principalmente na refrigeração e aerossóis, tendiam a entrar na atmosfera superior e a dissociarem-se. O cloro nos CFC, quando dissociado do resto da molécula, atacavam o ozono na estratosfera. Felizmente, graças à ciência e à tecnologia, os CFC foram eliminados e substituídos por químicos seguros.

4) A quarta é a poluição causada por fluxos de azoto e fósforo, especialmente como resultado do uso excessivo de fertilizantes químicos pelos agricultores a nível global. O problem é que grande parte do azoto e fósforo não são absorvidos pelas culturas. Uma parte regressa à atmosfera e é levada pelo vento para outros locais. Outra parte chega às águas subterrâneas e aos rios, em que grandes concentrações de azoto e fósforo acabam por chegar aos estuários. Este excesso de nutrientes dá origem a "blooms de algas", em que o seu número aumenta massivamente em virtude da alta disponibilidade de azoto e fósforo. Quando estas algas morrem, são consumidas por bactérias, que por seu turno esgotam o oxigénio na água, dando origem a "zonas mortas" (baixas em oxigénio) e matando peixes e outras espécies marinhas.

5) A quinta fronteira surge do uso excessivo de recursos de água doce. Do total dos recursos hídricos que a humanidade usa, cerca de 70% é usado para produção agrícola, cerca de 20% é usado na indústria e os restantes 10% para uso doméstico. Ao usarmos este recurso excessivamente, a humanidade está a esgotar as principais fontes de água doce.

6)  A sexta fronteira é o uso do solo. A humanidade tem convertido paisagens naturais como as florestas em terrenos agrícolas e para pastoreio durante milhares de anos. Muitas regiões do mundo, que outrora eram cobertas florestas, agora são ocupadas por terrenos agrícolas e cidades. A desflorestação não só adiciona dióxido de carbono para a atmosfera, mas também destrói os habitats de outras espécies.

7) A sétima fronteira do planeta é a biodiversidade. A biodiversidade não só define a vida no planeta, mas também contribui de forma fundamental para as funções do ecossistemas, para a produtividade das culturas agrícolas, e em última instância para a saúde e sobrevivência da humanidade. Nós dependemos da biodiversidade para fornecimento de alimento, protecção para desastres naturais, materiais industriais e construção, fornecimento de água potável e para a nossa capacidade de resistir a pestes e agentes patogénicos. A humanidade está a provocar danos massivos na biodiversidade, através de poluição, desflorestação, alterações climáticas, acidificação dos oceanos e fluxos de azoto e fósforo. Inúmeras espécies enfrentam o risco de extinção e alguns afirmam que a humanidade está a causar a sexta grande extinção na Terra.

8) A oitava fronteira é o lançamento de aerossóis para a atmosfera. Quando queimamos carvão, biomassa e outros combustíveis, pequenas partículas chamadas de aerossóis são lançadas para o ar. Uma quantidade enorme de partículas pode ser particularmente perigoso para o aparelho respiratório e tem um significativo impacto na dinâmica das alterações climáticas.

9) A última categoria é a poluição química. Indústrias como a petroquímica, produção de aço e mineira não só usam uma enorme quantidade de solo e água, mas também libertam uma grande quantidade de poluentes para o meio ambiente.

Com base nesta análise, as duas fronteiras que estão associadas com maior risco são a diversidade genética e os fluxo de azoto e fósforo.

Quando a humanidade passa estas fronteiras do planeta, significa que as pressões humanas no ambiente tornam-se maiores do que a capacidade da terra absorver esses mesmos impactos; o resultado é uma importante alteração na função dos ecossistemas da Terra.

Fontes:
Stockholm Resilience Centre (http://www.stockholmresilience.org/)
The Age of Sustainable Development - Jeffrey D. Sachs

domingo, 31 de janeiro de 2016

Limites ao crescimento

Em 1972 um grupo de investigadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) publicou o livro "Os Limites ao Crescimento". Este famoso e controverso livro apresentou os resultados do estudo do MIT conduzido por  Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers e William W. Behrens III e encomendado pelo Clube de Roma, que analisou a problemática mundial utilizando um modelo informático "World3" desenvolvido pelo MIT. Este modelo permitiu analisar as interacções dos cinco subsistemas do sistema económico global nomeadamente: população, produção agrícola, produção industrial, poluição e consumo de recursos naturais não-renováveis. A escala temporal para este modelo inicia-se no ano 1900 e continua até ao ano 2100. 

A publicação deste livro teve impactos imediatos que perduraram até hoje. As questões ambientais e o debate sobre sustentabilidade foram mais popularizados pela venda de milhões de cópias e tradução para 30 línguas. O World3 foi o primeiro modelo integrado global ao fazer a ligação entre a economia mundial com o ambiente. A mensagem que sobressaiu do modelo foi a de que o crescimento continuado na economia  mundial levaria a que os limites do planeta fossem ultrapassados algures durante o século XXI, muito provavelmente resultando no colapso da população e do sistema económico; porém este colapso poderia ser evitado com a combinação de atempada mudanças de comportamento, políticas e tecnologia.

Estas recomendações para mudanças fundamentais nas políticas e no comportamento tendo em vista a sustentabilidade nunca viriam a ser seguidas. Desde o tempo da sua publicação até aos dias de hoje, o livro têm recebido bastante criticismo que falsamente alega que o estudo previu que os recursos seriam esgotados e que o sistema mundial iria colapsar até ao final do século XX. Essas alegações vão produzidas em artigos científicos, livros, materiais educativos, jornais, artigos de revistas e websites.

Desde a publicação do livro em 1972, o Clube de Roma tem lançado actualizações ao mesmo numa base de 5 anos.

Previsões do estudo Limites ao crescimento em 1972 
(Fonte: http://www.commondreams.org/)
Através do gráfico acima, podemos observar a comparação entre a previsão do estudo de 1972 e a realidade observada. No período 1970-2000, o output industrial aumentou bem como a produção agrícola e serviços per capita. Paralelamente, a poluição global e a população registaram um aumento enquanto a quantidade de recursos não-renováveis remanescentes diminuíram. O estudo prevê também o declínio da população provocado pelo colapso da economia mundial por volta do ano de 2030.

Nesse estudo, os autores concluíram: "Se as tendências de crescimento da população mundial, industrialização, produção agrícola e esgotamento de recursos continuarem inalteradas, os limites ao crescimento neste planeta serão atingidos algures nos próximos cem anos. O resultado mais provável será um rápido e incontrolável declínio na população e capacidade industrial."

Fontes:

sábado, 23 de janeiro de 2016

Malthus e a Teoria Malthusiana

Thomas Malthus foi um demógrafo e economista inglês que publicou em 1798 o Ensaio sobre o Princípio da População. Surgiu como a primeira teoria demográfica teve grande impacto e é, até hoje, a mais popular entre todas, apesar das falhas que apresenta.

Thomas Malthus
A teoria Malthusiana baseia-se no Princípio da escassez em que a população humana tende a crescer mais rapidamente que a produção de alimentos o que torna o conceito de escassez de extrema importância para a economia.

Segundo Thomas Malthus, pode-se considerar dois postulados, sendo o primeiro que o alimento é necessário à existência do homem, e o segundo que a paixão entre os sexos é necessária e permanecerá aproximadamente no seu presente estado. Supõe-se então que a capacidade de crescimento da população é indefinidamente maior que a capacidade da terra de produzir meios de subsistência para o homem,

Na perspectiva de Malthus, existiam dois tipos de obstáculos. Os obstáculos positivos que contribuíam para o aumento da taxa de mortalidade (fome, desnutrição, epidemias, doenças, pragas, guerras, etc.). Os obstáculos preventivos que reduziam a taxa de natalidade como as práticas anticoncepcionais voluntárias.

O crescimento da população, os meios de subsistência e as causas da pobreza em plena Revolução Industrial são os problemas centrais analisados por Malthus. Segundo o autor, "pode-se seguramente afirmar que, se não existir nenhum controlo, a população dobra de 25 em 25 anos ou crescerá em progressão geométrica (1,2,4,8,16,32,64,128,256,512,...). Pode-se afirmar também que, dadas as actuais condições médias da terra, que os meios de subsistência, nas mais favoráveis circunstâncias, só poderiam aumentar, no máximo, em progressão aritmética (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,...). Malthus conclui também que "... o poder da população é tão superior ao poder do planeta de fornecer subsistência ao homem que, de uma maneira ou de outra a morte prematura acabará por visitar a raça humana".
Teoria de Malthus - População vs. Recursos
Assim, Malthus concluiu que o ritmo de crescimento populacional seria mais acelerado do que o ritmo de crescimento de alimentos (progressão geométrica vs progressão aritmética) e que no futuro as possibilidades de aumento da área cultivada estariam esgotadas, pois todos os continentes estariam completamente ocupados pela agropecuária e, no entanto, a população mundial continuaria a crescer.

Malthus também elaborou uma Teoria da População, cujo objectivo principal era substituir os obstáculos positivos (guerras, pobreza, etc.) pela restrição moral.

A "queda progressiva do salário real da mão-de-obra reduz o bem estar da população". Para amenizar esse problema, Malthus recomendava o controlo da natalidade através da abstinência sexual, ou seja, o homem não deve casar antes de possuir condições económicas para sustentar a sua família.

Malthus criou a expressão "Catástrofe Malthusiana" para designar a situação na qual, como consequência da insuficiência de recursos alimentares para sustentar uma população em crescimento geométrico, é inevitável que uma grande percentagem da população pereça graças à fome e à doença.

Malthus foi um dos primeiros economistas a vincular crescimento demográfico e crescimento económico. É verdade que a sua teoria não se confirmou nos países europeus industrializados, mas apresenta certa pertinência nos países do Terceiro Mundo, onde certos governos adoptaram políticas malthusianas de controlo da natalidade.


Fontes:

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Assistência Oficial ao Desenvolvimento

Através de investimentos chave na agricultura, educação, saúde, infra-estruturas e empreendedorismo feminino, os países da África subsariana e sul da Ásia podem subir a escada do desenvolvimento, ultrapassando assim a "armadilha" da pobreza, e assim criar condições para a sustentabilidade do seu crescimento e para a saída da pobreza extrema.

O conceito de assistência oficial ao desenvolvimento (AOD), significando assistência ao desenvolvimento por parte governos e agências internacionais, está presente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos lançaram o famoso Plano Marshall para ajudar a reconstrução dos países europeus depois da devastação da guerra. Este plano proporcionou uma injecção temporária de fundos, na forma de subvenção quase na sua totalidade, para impulsionar a renovação da vida económica e o crescimento sustentável. O Plano Marshall serviu assim de inspiração para o crescimento de um sistema de subvenções e empréstimos com juros baixos, não só para reconstrução no pós-guerra mas também para impulsar o crescimento económico a longo prazo.

Segundo os seus defensores, a AOD deverá ser uma medida temporária para ajudar um país pobre na execução dos investimentos cruciais necessários. A ajuda não é uma necessidade ou uma solução permanente. Os países que recebem ajuda poderão atingir um nível de rendimento que lhes permita não depender dela na totalidade. A China e a Coreia são dois casos de países que recebiam ajuda e que prescindiram dela e, até mesmo se tornaram países doadores recentemente.

Por volta de 1970, a AOD tornou-se um pilar básico da comunidade internacional. O relatório Partners in Development sugeriu que os países mais ricos deveriam doar cerca de 1% do seu produto national bruto (PNB). Desse 1%, 0.7% deveria ser doado através de canais oficiais, principalmente subvenções e empréstimos entre governos. Os restantes 0.3% deveriam surgir de contribuições privadas: empresas, fundações, filantropo e instituições de caridade. Com esta informação, as Nações Unidas adoptou o objectivo que os países mais ricos deveriam contribuir com 0.7 % do seu produto interno para AOD.

Assistência oficial ao desenvolvimento em % do PNB em 2014 
(Fonte: http://www.oecd.org/media/oecdorg/directorates/developmentco-operationdirectoratedcd-dac/financingsustainabledev/Net%20ODA%20in%202014%20as%20percentage%20of%20GNI-640x480.png)
O gráfico acima mostra os doadores de AOD em 2014. Apenas 5 países entre os doadores chegam ao objectivo de 0.7 % do produto interno: Suécia, Luxemburgo, Noruega, Dinamarca e Reino Unido. A Suécia e o Luxemburgo atingem o 1%.

O total do produto combinado dos países doadores é cerca de 40 biliões de dólares por ano. Se os países contribuíssem de acordo com o objectivo das Nações Unidas, a ajuda no total seria de aproximadamente 280 mil milhões de dólares por ano. Na verdade, a ajuda ronda os 120 mil milhões ou seja, apenas 0.3% do produto bruto dos países doadores.

Assistência oficial ao desenvolvimento em valores absolutos em 2014
(Fonte:  http://www.oecd.org/media/oecdorg/directorates/developmentco-operationdirectoratedcd-dac/financingsustainabledev/Net%20ODA%20in%202014-640x480.png)

Em termos absolutos, os países que mais contribuíam em 2008 eram os Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Japão, com claro destaque para os primeiros que distribuem 26 mil milhões de dólares.

Depois do ano 2000, assistiu-se a um aumento significativo de AOD na saúde que foi fundamental para o controlo da SIDA, malária e tuberculose e para assegurar boas condições para a mães e os recém-nascidos nos primeiros dias de vida. Essa ajuda também pode ajudar a assegurar que as crianças recebam uma nutrição adequada e que possam frequentar a escola.

A AOD pode fazer uma enorme diferença quando usada para o real propósito do desenvolvimento e numa base profissional dentro de uma correcta análise diferencial das necessidade de um país pobre. Esta ajuda pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma saída da "armadilha" da pobreza.

Fonte: 
The Age of Sustainable Development (Jeffrey D. Sachs)