terça-feira, 24 de maio de 2016

Educação para todos: a abordagem do ciclo de vida para o desenvolvimento humano

O conceito de desenvolvimento humano inclui duas ideias relacionadas. A primeira é o facto importante de que as capacidades e a saúde de um indivíduo depende do processo cumulativo, de boa saúde e acesso a cuidados de saúde, viver num ambiente seguro, educação, desenvolver competências e a experiência de trabalho.

A evidência é bastante forte que à medida que os indivíduos acumulam mais educação, mais formação profissional e mais experiência de trabalho, a sua produtividade no mercado de trabalho também aumenta. Da mesma forma, os investimentos na saúde criam condições para a produtividade. Investir na saúde de uma criança ajuda a criar para as bases para uma vida saudável em adulto.

A segunda ideia de desenvolvimento humano é do "ciclo de vida" do indivíduo. Devemos considerar o indivíduo durante a seu período inteiro de vida. As capacidades, a saúde e produtividade de um indivíduo em qualquer etapa do ciclo de vida dependem das escolhas efectuadas nas etapas anteriores. Cada etapa do ciclo de vida cria as condições para as etapas que se seguem.

O processo de educação formal deve começar antes do começo da escola primária. Um número crescente de países estão a introduzir aulas para crianças com idade inferior a 5 anos como forma de melhorar a aprendizagem nesta fase inicial e o desenvolvimento saudável do cérebro. Daí que a educação primária para todas as crianças é agora globalmente reconhecida como uma necessidade básica e um direito básico. Todas as crianças necessitam de educação secundária seguida de ensino profissional e educação superior.

Têm existido um progresso significativo em alcançar o acesso universal à educação primária. Em 1970, a taxa de inscrição bruta rondava os 85%. Nos dias de hoje, essa taxa supera já os 100%. Esta taxa é extremamente importante para a igualdade de género na educação. As crianças do sexo feminino estão na sua maioria a frequentar a escola primária. Em 1990, a percentagem de raparigas no ensino primário era de cerca de 60%, enquanto que a percentagem de rapazes era de 90%. Em 2010, essa discrepância deixou de existir.

O progresso ao nível da educação secundária e superior é bem menor. A maioria parte do mundo apresenta taxas elevadas de inscrição no ensino secundário, mas na África subsariana e em partes da Ásia onde a pobreza extrema persiste, os níveis de educação secundária permanece inadequado.

Taxa de frequência no ensino secundário em 2005
(Fonte: http://lh6.ggpht.com/fhuebler/SCECgse60pI/AAAAAAAAATo/euDKdjfSwME/s800/20050402_SNER_Total.png)

A situação em relação a níveis de educação superior é mais variada. Os países mais pobres apresentam taxas de inscrição de 10% ou inferior. A falta de níveis adequados no ensino superior vem-se tornando num grande impedimento ao progresso económico dos países em maiores dificuldades. As instituições de ensino superior são necessários para assegurar que existam professores qualificados, um número suficiente de técnicos e uma geração de jovens qualificados formados em políticas públicas e desenvolvimento sustentável.

Fonte:
The Age of Sustainable Development - Jeffrey D. Sachs

domingo, 24 de abril de 2016

Desigualdade de género

A desigualdade de género tem sido uma característica presente desde há muito na maioria das sociedades, um pouco por todo o mundo. Na maior parte da história, os homens eram os únicos a pertencer à classe trabalhadora paga, enquanto que as mulheres trabalhavam na agricultura e para o lar enquanto que tinham a cargo a educação dos filhos. A legislação e as normas sociais reforçaram esta divisão do trabalho, tornando impossível que a mulher tivesse os seus próprios negócios ou controlasse os seus rendimentos.

Felizmente, estas desigualdades de género estão a diminuir rapidamente em muitas partes do Mundo. As velhas práticas de discriminação contra as mulheres estão a mudar, as ideias estão a mudar, as exigências económicas estão a mudar e as possibilidades económicas para as mulheres estão a caminhar para a direcção certa.

O desenvolvimento sustentável pode ajudar nesse processo através da promoção de alterações legais e administrativas que apoiem as mulheres. Como resultado, as adolescentes permanecem na escola mais tempo e entram no mercado de trabalho com maiores competências. As taxas de fertilidade descem bruscamente, as famílias com menos filhos investem mais em educação, saúde e nutrição por criança e as mulheres entram na força de trabalho promovendo um aumento da parte da população em idade de trabalho.

Em 2010, o Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas (PDNU) introduziu o Índice de Desigualdade de Género (IDG). À semelhança do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDG combina diversos indicadores numa base ponderada para fornecer uma avaliação quantitativa da desigualdade de género em cada país.

Índice de desigualdade de género do PDNU em 2014
(Fonte: http://bit.ly/1r9YwVT)

O índice inclui 3 categorias. A primeira é a saúde reprodutiva que inclui a taxa de mortalidade materna e a taxa de fertilidade na adolescência. Esta última é um indicador de quão as adolescentes são forçadas a desistir da sua educação e a casar mais cedo e a ter filhos. A segunda categoria é a capacitação, medida através da percentagem de mulheres com assento no parlamento nacional e taxa de inscrição de mulheres no ensino superior. A terceira é a participação da mulheres no mercado de trabalho.

Como se pode observar no mapa, os países da África subsariana e Sul da Ásia apresentam altos índices de desigualdade. Estas são zonas onde a mulher tem pouca participação política e prestígio social.

Percentagem de mulheres com mais de 15 anos que participam no mercado de trabalho em 2014 
(Fonte: http://www.copts.com/english/wp-content/uploads/2014/02/women-labor-force-participation1.jpg)

De notar que os países do Norte de África e Médio Oriente têm baixas percentagem de mulheres com participação no mercado de trabalho. Em muitos destes países, as práticas culturais impedem as mulheres de trabalhar fora do lar.

Mesmo nos países mais ricos, onde a taxa da participação das mulheres no mercado trabalho aumentou marcadamente nos últimos trinta anos, ainda existem diferenças consideráveis entre os rendimento dos homens e mulheres.

Diferença de rendimento entre mulheres e homens nos países da OECD em 2015
(Fonte: https://pbs.twimg.com/media/CLYMb6tUcAE1Lu1.png)

Existe ainda um progresso na igualdade de género, mesmo nos países mais pobres. Nos últimos 40 anos, a nível da escolaridade primária, a diferença entre rapazes e raparigas quase que desapareceu e em algumas partes do globo, as taxas de inscrição das adolescentes do sexo feminino no ensino secundário e superior ultrapassaram as taxas respeitantes aos adolescentes do sexo masculino.
Inscrição no ensino primário de rapazes e raparigas entre 1970-2004 
(Fonte: http://bit.ly/1YOxTAe)

Na política, algumas sociedades introduziram sistemas de quotas que obriga a que uma certa proporção de de votos na representação proporcional dos partidos que seja ocupada por mulheres. O apoio financeiro do governo para licença de maternidade e cuidado infantil podem ajudar as mulheres no mercado de trabalho.

Finalmente, importa dar ênfase aos actos de violência doméstica, violação e outros actos violentos de que as mulheres são alvo. Em muitas sociedades, as mulheres ainda são vistas como propriedade dos seus cônjuges. Esta abordagem desumana é a negação fundamental dos direitos humanos.

Fonte:
The Age of Sustainable Development - Jeffrey D. Sachs

terça-feira, 5 de abril de 2016

Forças que aumentam a desigualdade

Durante as últimas duas décadas, a desigualdade no rendimento aumentou marcadamente nos Estados Unidos e em muitos outros países. O rendimento per capita têm vindo a aumentar, mas esses ganhos têm beneficiado aqueles que estão no topo da distribuição de rendimento. O coeficiente de Gini nos Estados Unidos aumentou de 0.40 para 0.48 entre 1970 e 2013 - um aumento bastante considerável.

Existem pelo menos três forças fundamentais a desempenhar um papel no aumento das desigualdades económicas nos Estados Unidos, em diversos países europeus e em muitas economias emergentes. O primeiro factor fundamental é a discrepância dos salários entre os trabalhadores mais capacitados e com maior especialização e os trabalhadores com menor qualificações. Os retornos do investimento na educação têm aumentado, deixando aqueles com menor educação para trás.

Um segundo fenómeno tem sido o uso crescente de robótica, sistemas avançados de gestão de dados e outras tecnologias de informação, que parecem estar a mudar o rendimento do trabalho para o capital. Ao mesmo tempo, que se aumentou drasticamente a produtividade e se diminui o custo de muitos bens e serviços, os trabalhadores começaram a ser substituídos por essa tecnologia.

Paralelamente, a globalização e a integrada económica que se começaram no final da década de 70, resultou na globalização dos sistemas de produção, que conduziu à deslocalização do trabalho para China, México e outros locais com mão-de-obra mais barata. O número de postos de trabalho nos Estados Unidos no sector da produção começaram a diminuir assim que se deslocaram para a Ásia e para a bacia das Caraíbas. Isto afectou os trabalhadores com menor qualificação através do corte de salários para salvar outros postos de trabalhos ou do desaparecimento dos mesmos.

A terceira força tem sido o sistema político, que no caso dos Estados Unidos têm amplificado as desigualdades causadas por forças de mercado. Por exemplo, os contribuidores das campanhas têm sido capazes de usar a sua influência política para receber privilégios especiais na forma de isenção de impostos, subsídios ou alterações de regulamentações favoráveis.

Podemos entender estas alterações é olhar para o gráfico que mostra a diferença entre o salário extra (premium in income) recebidos pelos licenciados relativamente àqueles apenas com o ensino secundário nos Estados Unidos. Em 1973, essa diferença era de 30% e a partir de 1979, o salário extra dos licenciados aumentou rapidamente para cerca de 45%.

Rendimentos médios semanais de trabalhadores com licenciatura e ensino secundário nos Estados Unidos entre 1979 e 1999 
(Fonte: http://www.economist.com/images/20000923/csu712.gif)

Outro aspecto que se pode considerar é a diferença entre os salários dos CEOs e os salários dos trabalhadores. Com a apoio da desregulação, especialmente no sector financeiro e o enfraquecimento do poder dos sindicatos (em parte como resultado da globalização), os CEOs americanos começaram a atribuir mega-salários a eles próprios. Nos anos 70, o salário do CEO era cerca de 20 vezes maior do que o trabalhador médio, mas depois passaram a receber cerca de centenas de vezes mais. Comparativamente, os Estados Unidos são um dos países com um dos rácios mais elevados - cerca de 350.

Rácio entre salários de CEOs e trabalhadores entre 1965 e 2012
(Fonte: http://www.bud-meyers.com/CEOS/CEO_PAY-figure-a.jpg)
Rácio do salários CEO vs. trabalhadores em 6 países
(Fonte: http://www.macleans.ca/wp-content/uploads/2014/09/WHO-EARNS-WHAT-Business-7.jpeg)

Esta crescente desigualdade reflecte-se na fatia do rendimento que é detida pelas famílias mais ricas. Entre os anos 40 e os anos 70, as famílias que pertenciam aos 1% mais ricos detinham cerca de um 10% do rendimento total das famílias. Hoje em dia, essa diferença quase que duplicou, ou seja, 20% do rendimento total, pertencem a 1% das famílias que fazem parte do topo.

Fatia do rendimento pertencente aos 1% e aos 0,1% mais ricos nos Estados Unidos entre 1913 e 2013
(Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e7/U.S._Income_Shares_of_Top_1%25_and_0.1%25_1913-2013.png)

Fonte:
The Age of Sustainable Development - Jeffrey D. Sachs

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pegada ecológica

O fornecimento de recursos renováveis às populações resulta em desperdícios e poluição e pode ter um enorme impacto ambiental. Podemos medir esse impacto através da pegada ecológica - a quantidade de área biologicamente produtiva  e de água necessárias para fornecer às pessoas, de um país ou área em particular, uma quantidade indefinida de recursos renováveis e para absorver e reciclar os desperdícios e poluição produzidos pela utilização de cada recurso. A pegada ecológica per capita é a pegada ecológica média de um indivíduo num dado país ou área.

Se a pegada ecológica total de um país (ou o mundo) é maior do que a sua capacidade biológica (biocapacidade) para reabastecer os seus recursos renováveis e para absorver os desperdícios e poluição resultantes, diz-se que tem um défice ecológico. Por outras palavras, existe uma situação de insustentabilidade em que se esgota o capital natural em vez de se depender apenas do rendimento gerado por esse capital.

Pegada ecológica global entre 1961 e 2007
(Fonte: http://assets.wwf.ca/img/original/lpr2010_figure2.jpg)
Em 2008, o World Wildlife Fund (WWF) e a Global Footprint Network estimaram que a pegada ecológica global excedeu a capacidade biológica da Terra para suportar os humanos e outras formas de vida em pelos menos 30%. Isto significa que a humanidade vive de forma insustentável. De acordo com o WWF, necessitamos aproximadamente o equivalente a pelo menos 1.3 planetas Terra para fornecer uma quantidade de recursos renováveis infinita (de acordo com o consumo actual per capita) e para absorver a poluição e desperdícios resultantes. Se a tendência de crescimento da população mundial e da taxa média de uso de recursos renováveis continuarem como as projecções indicam, por volta de 2035, iremos necessitar o equivalente a 2 planetas Terra.

Alguns analistas da pegada ecológica tentaram mostrar esta medida em termos da área de solo necessário para produzir os recursos utilizados. De acordo com um estudo,  a pegada ecológica mundial per capita equivale a 5 campos de futebol. Nos Estados Unidos esse valor ascende a 18 campos de futebol, enquanto que na Alemanha e na China, equivale a 8 e a 4, respectivamente.

Pegada ecológica per capita por país
(Fonte: http://www.footprintnetwork.org/images/LPR-Figure-Data.gif)
Atendendo à pegada ecológica per capita, os 10 países que apresentam os índices mais elevados são: Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Dinamarca, Bélgica, Trindade e Tobago, Singapura, Estados Unidos, Bahrain e Suécia. Se considerarmos a pegada ecológica total, a China, os Estados Unidos, a Índia, o Brasil e a Rússia são os países que mais contribuem em termos globais.

Ao compararmos a pegada ecológica e a biocapacidade de um país, podemos calcular o seu crédito ecológico (no caso da biocapacidade ser superior à pegada ecológica) ou o seu débito ecológico, se a pegada for superior à sua biocapacidade. No mapa abaixo podemos observar de uma forma mais global, quais as zonas que apresentam maiores créditos/débitos ecológicos.

Pegada ecológica vs biocapacidade
 (Fonte: http://www.footprintnetwork.org/images/Biocapacity_Deficit_Reserve_2011data.jpg)

Fontes:
Living in the Environment - Miller & Spoolman
Living Planet Report (2014)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Equação IPAT

Uma das primeiras tentativas para descrever o papel de múltiplos factores na determinação da degradação ambiental foi a equação IPAT. Paul Ehrlich e John Holdren apresentaram numa série de artigos entre 1970 e 1974 a seguinte equação:

Equação IPAT
(Fonte: http://pierie.nl/wp-content/uploads/2012/01/IPAT-equation.jpg)

I - Impacto: representa os impactos de uma determinada acção no ambiente
P - População: número de pessoas numa determinada área
A - Afluência: nível de consumo per capita
T - Tecnologia: impacto por unidade de tecnologia

Esta fórmula foi inicialmente usada para dar ênfase à contribuição do crescimento populacional à escala global para a degradação ambiental, numa altura em que a população mundial era metade do que é actualmente. 

Para além de destacar a importância da contribuição da população para os problemas ambientais, esta equação fez outras duas contribuições importantes. Chamou a atenção para o facto de os problemas ambientais envolverem mais do que a poluição e que são motivados por diversos factores em acção ao mesmo tempo que produzem um efeito combinado. Posterior investigação, que usou a equação, indica que a suposição de uma simples relação multiplicativa entre os principais factores não se verifica - a duplicação da população, por exemplo, não se traduz numa duplicação do impacto ambiental. As abordagens que permitem uma ponderação diferenciada para cada factor tem sido mais bem sucedida.

As tentativas de melhorar o poder de previsão da equação têm sido de forma a incorporar uma variação de factores sociais. políticos e tecnológicos. Alguns dos estudos acentuam a utilidade da equação para as políticas de desenvolvimento através da indicação da contribuição de diferentes factores e assim os recursos podem ser melhor direccionados para reduzir o impacto de forma mais efectiva. No entanto, tornar a fórmula mais complexa também torna mais difícil aplicá-la.

Até à data, as aplicações da equação IPAT têm-se limitado à avaliação de uma única medida de impacto ambiental, como a poluição atmosférica. Por exemplo, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas aplicou a IPAT para estudos dos níveis de dióxido de carbono.

A equação IPAT ajuda-nos a entender quais os factores que aumentam ou diminuem o impacto ambiental e mostra-nos como existem múltiplos caminhos para reduzir os efeitos indesejados. Por exemplo, países diferentes podem focar-se em factores diferentes que reduzem o impacto global: países mais ricos podem contribuir mais se diminuírem o seu nível de consumo (A); os países mais pobres contribuir mais se reduzirem a sua população (P) e os antigos países socialistas podem contribuir mais se tornarem as suas tecnologias mais eficientes.

Fontes:

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A tragédia dos comuns

Existem três tipos de propriedade ou direitos de acesso a recursos. Um é a propriedade privada, onde os indivíduos ou as empresas detêm o direito de acesso ou exploração de terreno, minerais e outros recursos. O segundo é a propriedade comum, onde os direitos de acesso a certos recursos pertencem a grandes grupos de indivíduos. Da terceira categoria fazem parte os recursos renováveis de livre acesso, que não pertencem a nenhum indivíduo, empresa ou nação, e que estão disponíveis por um pequeno preço ou de forma gratuita. Exemplos desses recursos partilhados incluem a atmosfera, as águas de subterrâneas, os oceanos e a vida marinha.

Muitas propriedades comuns e recursos de livre acesso têm sido degradados. Em 1968, o biólogo Garrett Hardin (1915-2003) designou esta degradação de tragédia dos comuns. Este fenómeno ocorre pelo raciocínio de cada utilizador: "Se eu não usar este recurso, alguém usará. A pequena parte que uso ou poluo não é suficientemente grande para ter importância e de qualquer forma isto é um recurso renovável."
Quando o número de utilizadores é pequeno, esta lógica aplica-se, no entanto, o efeito cumulativo de muitas pessoas a tentarem explorar um recurso partilhado, pode levar à sua degradação e finalmente ao seu esgotamento ou destruição. Tal degradação ameaça a nossa capacidade de assegurar a sua sustentabilidade económica e ambiental a longo-prazo dos recursos de livre acesso.

Tragedy of the Commons or The Problem with Open Access 

Para combater e evitar a tragédia dos comuns, uma das formas é a acção individual que está ligada com a nossa responsabilidade de serem bons guardiões, no entanto, existem algumas limitações mencionadas por Hardin: 1) Não é psicologicamente saudável forçar as pessoas a agir contra os seus próprios interesses, 2) Discrimina pessoas com boa consciência, que serão menos bem sucedidas e 3) Não resultará no longo prazo. As pessoas sem consciência serão mais bem sucedidas do que as outras e os seus valores dominarão o sistema.

A outra estratégia pode ser introduzir governança interna e normas sociais na utilização destes recursos, embora seja fundamental conhecermos os outros utilizadores e existir boa comunicação.

Uma outra alternativa é introduzir mecanismos de governança externa em que os governos criam leis e regulamentos que limitam o uso de determinados recursos como limitar a quantidade de peixe extraída dos mares ou regulamentar  a quantidade de poluentes que podem ser lançados para a atmosfera e para os oceanos. Contudo, a corrupção, a falta de informação, as actividades ilegais e o facto de existirem organizações mundiais a gerirem estes recursos, podem enfraquecer a aplicação deste tipo de governança.

Quando estas três alternativas falham, o último recurso poderá ser a conversão destes recursos em propriedade privada. A razão subjacente é que quando possuímos algo, é mais provável que cuidemos melhor do nosso investimento. No entanto, esta abordagem não é muito prática uma vez que não podemos dividir a atmosfera e os oceanos e vendê-los como propriedade privada.

Fontes:

Fronteiras do Planeta

Em 2009, um grupo de cientistas, liderado por Johan Rockström do Centro de Resiliência de Estocolmo e Will Steffen da Universidade Nacional Australiana, desenvolveu o conceito de fronteiras do Planeta, identificando as nove propriedades relacionadas com as mudanças no ambiente provocadas pelo Homem. A ciência mostra que estes nove processos e sistemas regulam a estabilidade e resiliência do sistema terrestre - as interacções da terra, oceanos, atmosfera e a vida que juntos proporcionam as condições das quais as nossas sociedades dependem.

As 9 fronteiras do Planeta: os limites e o progresso até 2009
(Fonte: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/21/f3/d3/21f3d3d33d4bf0c28789c8f0d3e5756c--planet-s-royal-society.jpg)

1) A primeira e mais importante fronteira está relacionada com as alterações climáticas causadas pelo Homem, que são resultado dos níveis crescentes de gases com efeito de estufa (GEE) na atmosfera. Os GEE incluem o dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e alguns químicos industriais. À medida que a sua concentração aumenta na atmosfera, o planeta aquece. Este aumento, provocado pela actividade industrial, tem aumentado drasticamente no século passado, e a Terra já aqueceu cerca de 0,9º celsius, comparando com as temperaturas antes da Revolução Industrial. Estas alterações no clima são especialmente ameaçadoras pelos danos que podem provocar no fornecimento de alimento e na sobrevivência de espécies, pelo aumento da intensidade das tempestades e pela subida do nível do mar, que podem alterar drasticamente ou destruir a vida em muitas partes do mundo. 

2) A segunda fronteira do planeta - acidificação do oceano - está relacionada com a primeira. Os oceanos tornam-se mais ácidos à medida que as concentrações de dióxido de carbono aumentam. O dióxido de carbono dissolve-se no oceano, produzindo ácido carbónico. O ácido carbónico divide-se num ião de hidrogénio e bicarbonato. O aumento de iões de hidrogénio significa o aumento da acidez dos oceanos. Este aumento ameaça várias formas de vida marinha, incluindo corais, crustáceos e plankton, pela dificuldade acrescida para estas espécies de construir as suas estruturas.

3) A terceira fronteira é a camada do ozono. Nos anos 70, cientistas descobriram que certos químicos industriais chamados Clorofluorcarbonetos (CFC), que eram usados principalmente na refrigeração e aerossóis, tendiam a entrar na atmosfera superior e a dissociarem-se. O cloro nos CFC, quando dissociado do resto da molécula, atacavam o ozono na estratosfera. Felizmente, graças à ciência e à tecnologia, os CFC foram eliminados e substituídos por químicos seguros.

4) A quarta é a poluição causada por fluxos de azoto e fósforo, especialmente como resultado do uso excessivo de fertilizantes químicos pelos agricultores a nível global. O problem é que grande parte do azoto e fósforo não são absorvidos pelas culturas. Uma parte regressa à atmosfera e é levada pelo vento para outros locais. Outra parte chega às águas subterrâneas e aos rios, em que grandes concentrações de azoto e fósforo acabam por chegar aos estuários. Este excesso de nutrientes dá origem a "blooms de algas", em que o seu número aumenta massivamente em virtude da alta disponibilidade de azoto e fósforo. Quando estas algas morrem, são consumidas por bactérias, que por seu turno esgotam o oxigénio na água, dando origem a "zonas mortas" (baixas em oxigénio) e matando peixes e outras espécies marinhas.

5) A quinta fronteira surge do uso excessivo de recursos de água doce. Do total dos recursos hídricos que a humanidade usa, cerca de 70% é usado para produção agrícola, cerca de 20% é usado na indústria e os restantes 10% para uso doméstico. Ao usarmos este recurso excessivamente, a humanidade está a esgotar as principais fontes de água doce.

6)  A sexta fronteira é o uso do solo. A humanidade tem convertido paisagens naturais como as florestas em terrenos agrícolas e para pastoreio durante milhares de anos. Muitas regiões do mundo, que outrora eram cobertas florestas, agora são ocupadas por terrenos agrícolas e cidades. A desflorestação não só adiciona dióxido de carbono para a atmosfera, mas também destrói os habitats de outras espécies.

7) A sétima fronteira do planeta é a biodiversidade. A biodiversidade não só define a vida no planeta, mas também contribui de forma fundamental para as funções do ecossistemas, para a produtividade das culturas agrícolas, e em última instância para a saúde e sobrevivência da humanidade. Nós dependemos da biodiversidade para fornecimento de alimento, protecção para desastres naturais, materiais industriais e construção, fornecimento de água potável e para a nossa capacidade de resistir a pestes e agentes patogénicos. A humanidade está a provocar danos massivos na biodiversidade, através de poluição, desflorestação, alterações climáticas, acidificação dos oceanos e fluxos de azoto e fósforo. Inúmeras espécies enfrentam o risco de extinção e alguns afirmam que a humanidade está a causar a sexta grande extinção na Terra.

8) A oitava fronteira é o lançamento de aerossóis para a atmosfera. Quando queimamos carvão, biomassa e outros combustíveis, pequenas partículas chamadas de aerossóis são lançadas para o ar. Uma quantidade enorme de partículas pode ser particularmente perigoso para o aparelho respiratório e tem um significativo impacto na dinâmica das alterações climáticas.

9) A última categoria é a poluição química. Indústrias como a petroquímica, produção de aço e mineira não só usam uma enorme quantidade de solo e água, mas também libertam uma grande quantidade de poluentes para o meio ambiente.

Com base nesta análise, as duas fronteiras que estão associadas com maior risco são a diversidade genética e os fluxo de azoto e fósforo.

Quando a humanidade passa estas fronteiras do planeta, significa que as pressões humanas no ambiente tornam-se maiores do que a capacidade da terra absorver esses mesmos impactos; o resultado é uma importante alteração na função dos ecossistemas da Terra.

Fontes:
Stockholm Resilience Centre (http://www.stockholmresilience.org/)
The Age of Sustainable Development - Jeffrey D. Sachs